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Obama será um presidente de sorriso aberto e mercados fechados

05/11/08 às 09:38

 

Barack Obama será um presidente de sorriso aberto e mercados fechados. O novo líder americano deverá adotar uma postura mais conciliadora e colaborativa em questões multilaterais, como a redução das emissões de poluentes, mas não fará concessões significativas no comércio mundial - que é o que realmente interessa aos empresários brasileiros. Tendo como principal desafio recuperar a economia americana dos estragos causados pelo estouro da bolha imobiliária, Obama se voltará para o estímulo à geração de empregos e ao crescimento do mercado interno. Ao mesmo tempo, o Congresso que emerge das eleições desta terça-feira (4/11), majoritariamente democrata, também será mais protecionista.

"Não acredito que Obama faça grandes concessões no comércio internacional, especialmente com o apoio dos democratas no Congresso", afirma o economista Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Aliás, as manifestações são no sentido contrário. Durante a campanha, Obama já declarou que pretende rever os termos do acordo que criou o Nafta, área de livre comércio da América do Norte, que inclui o Canadá e o México. Criado há 15 anos, o Nafta, na sua avaliação, já não atende aos interesses americanos. Também está disposto a revisar o tratado de livre comércio com a América Central, por entender que ele não beneficia os trabalhadores de seu país. E já se espera que deixe no limbo um acordo semelhante negociado com a Colômbia e que, agora, aguarda o aval do Congresso americano.

Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, a urgência em recolocar a economia americana nos trilhos consumirá os primeiros anos do mandato. O novo ocupante da Casa Branca estará muito mais preocupado com o gigantesco déficit público americano do que com a liberalização de seu mercado. Até porque, em um momento de maior desemprego, permitir a entrada de produtos estrangeiros no país significa podar as possibilidades da indústria local crescer e, por tabela, contratar mais. "A Rodada Doha, por exemplo, vai ficar para depois", diz.

Isso não significa que Obama ignore que o cenário mudou. Hoje, os Estados Unidos disputam com outros países, sobretudo a China, a liderança mundial. Nesse planeta multipolar, o novo presidente americano tem as habilidades necessárias para negociar com vários atores. "Obama tem uma visão mais arquitetônica dos problemas; algo que falta ao McCain", afirma Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores. Para Lafer, o democrata será mais "criativo" na busca de alternativas que acomodem os interesses americanos e os de seus parceiros. "Ele sabe que não conseguirá resolver todos os problemas do país sozinho, e terá de buscar a cooperação das outras nações", explica Lafer. Mas o ex-chanceler brasileiro também lembra que, sob a pressão da crise interna, os americanos tendem a se fechar.

Região problemática

"A América Latina é vista pelos Estados Unidos mais como um problema do que como um parceiro comercial", afirma Rubens Ricupero, ex-diretor-geral da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Segundo Ricupero, a agenda americana para a região concentra-se em pontos negativos: combate à imigração ilegal; combate ao narcotráfico; e os possíveis impactos da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o grande bloco econômico que envolveria todos os países da região, sobre a sua economia.

Mesmo do ponto-de-vista geopolítico, a América Latina é um ator secundário para os Estados Unidos, voltados para a Guerra do Iraque, a estabilização do Oriente Médio e, agora, com o avanço da China e as pretensões russas de voltar a dar as cartas no cenário mundial. Na região, o país só se preocupa com os governos populistas de esquerda, capitaneados pelo presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas o poder de fogo de Chávez e seus aliados está minguando na mesma velocidade com que o preço do petróleo recua no mercado mundial. Para o Brasil, isso também significa uma queda de interesse por parte dos americanos, que vêem o país como uma alternativa confiável de liderança na região, por conter uma economia forte, um governo estável e, agora, fartos recursos energéticos, como petróleo e etanol.

Mesmo essa confiança nos brasileiros tem limites. O tão sonhado assento do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, deve continuar isso mesmo: um sonho. É improvável que o novo presidente americano apóie uma reforma do organismo para incorporar as aspirações brasileiras. "E, entre apoiar o Brasil ou o México, os americanos são 100 vezes mais o México", resume Ricupero.

Por conta própria

É verdade que o peso dos Estados Unidos na pauta de comércio do Brasil está caindo, o que significa uma maior diversificação dos destinos das exportações. Mas não se pode ignorar o mercado consumidor mais importante do mundo. Por isso, diante da pouca disposição do novo presidente americano em abrir o país, os empresários brasileiros terão de buscar oportunidades por conta própria.

Um filão que pode ser explorado é o energético. O preço do petróleo está em queda, diante da perspectiva de uma recessão mundial. Alguns analistas já duvidam da viabilidade brasileira de explorar as grandes jazidas do pré-sal, cuja exploração é complexa e bastante cara. Mas o etanol ainda é uma aposta para ganhar mercado. De acordo com Ricupero, o Brasil poderia fortalecer o etanol de cana, no médio prazo, se concordasse em estabelecer um limite para a emissão de poluentes dos países emergentes. Por ser um combustível limpo, a necessidade de cortar a emissão de carbono favoreceria o seu consumo. "O meio-ambiente é o setor em que mais pode haver avanços na relação entre o Brasil e os Estados Unidos", diz.

Também é possível avançar explorando as oportunidades já existentes. "Mais de 60% dos produtos importados pelos Estados Unidos têm tarifa zero ou próxima de zero", afirma Rubens Barbosa. "Falta conhecimento das empresas brasileiras de como vender para o país", diz.

Já no setor agrícola, em que o Brasil é uma das potências mundiais, as perspectivas de parceria são remotas. Segundo Ricupero, os americanos estão entre os povos mais resistentes à revisão dos subsídios agrícolas. Neste momento, a única coisa que une brasileiros e americanos é o interesse de impedir que chineses e indianos incluam um dispositivo de salvaguardas especiais para o setor agrícola no acordo que nasceria da Rodada Doha. Com a expectativa de que essas conversas sejam postergadas, o Brasil esse ponto em comum também perde a força.

Bem visto pela comunidade internacional, primeiro negro a presidir o maior país do mundo, Obama catalisou expectativas e esperanças ao redor do mundo. Mas, apesar de toda a simpatia que desperta, o presidente Obama estará comprometido com as necessidades de seu país. "Não devemos ter ilusões", resume Ricupero

Portal Exame

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